Feijão queimado

 — Mãe, lembra daquelas férias em que acampamos na sala? 

Ela abaixou a xícara de café e tentou retomar a cena. A maioria das férias em família era na casa da irmã, na praia.

 — Na sala da nossa casa, lelê? Que engraçado, não consigo me lembrar disso.

 — Sim, foi quando o papai esqueceu a panela no fogo e as paredes ficaram com cheiro de feijão queimado por dias – disse abrindo um largo sorriso. Eu venho pensando muito na minha infância ultimamente, e essas férias sempre me chegam com uma sensação boa, de segurança e carinho, sabe? Eu acho que devia ter uns cinco anos na época.

Ao fazer as contas, a mãe se lembrou do cheiro das paredes da sala.

 — O ano era 2020, filha, nós não estávamos de férias.

O silêncio tomou a cozinha. A lembrança infantil ganhou corpo e o contexto daquelas brincadeiras se uniu ao café da tarde, como um parente distante que chega sem convite, um desconforto.

Mãe e filha se olharam quando um fio de sol apontou a barriga redonda de Helena.

 — Eu te amo, mãe.


Escrevi esse texto para participar de um concurso cultural que tinha como tema “o mundo pós pandemia” ou algo do gênero. Eu não consigo pensar em como será esse mundo. Não consigo alcançar os sentimentos do primeiro dia de volta às aulas, da fila da pipoca no cinema ou do novo pânico de pegar um trem lotado.

É certo que ficção é um exercício de criação, mas por mais que se escreva uma história de fantasia, quem escreve tem catalogadas em si as emoções que pretende empenhar naquele universo. Eu ainda temo pelo futuro próximo. Soariam completamente falsas as minhas belas palavras em prosa que tentassem preencher os requisitos de um edital. Bobagem.
Para falar bonito em um cenário semi-apocalíptico, recorri a beleza diária que acompanho (remotamente, claro) nas casas de amigos e amigas com crianças pequenas.

Da caça ao tesouro na cozinha ao pula-pula improvisado quintal, o constante cuidado para garantir carinho e segurança para essas pessoinhas em formação é para mim a revoada dos vagalumes na profunda escuridão. Aos meus amigos, em especial às minhas amigas, cuidadores de mini seres humanos, a minha eterna admiração e o meu sincero agradecimento.

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