Amarelo

“Há um elefante sentado em meu peito” é a melhor metáfora que ja vi para descrever o que sinto.

Há um elefante sentado em meu peito.

Mas se o peso do elefante é real, a metáfora deixa de ser metafórica? É certo que não há a mais remota chance de um animal deste porte se encontrar literalmente sobre mim. Moro em um centro urbano e de acordo com o google maps o elefante mais próximo se encontra a 6,4km de distância, no zoológico da cidade – que é supreendentemente perto de minha casa –  e mesmo com a distância literal o peso metafórico-real não me deixa respirar.

Você entende?
O ar entra e sai de meu corpo, meu tórax se movimenta, mas mesmo assim eu não respiro.

“é ansiedade que chama”, brincam na internet. Como alguém pode brincar com isso? mais, como alguém quer me diagnosticar a 300km de distância e sem nenhum conhecimento médico?

Se eu tivesse algum conhecimento médico certamente não sairia por aí diagnosticando estranhos, mas tentaria usar de Freud e Lacan para convencer esse invisível paquiderme a descansar as patas em outro lugar.

Lembro agora de uma anedota do futebol: cansado, o jogador confessa ao repórter à beira do campo que ‘nem com dois pulmão’ ele alcançaria aquela bola. Pois bem, hoje nem com dois pulmão eu consigo entregar à sociedade a produtividade que de mim espera. Eu e o elefante não cabemos no vagão do trem, ou no elevador da firma e muito menos nas paredes modulares do escritório. Nem com dois pulmão eu acordaria às 5 da manhã para saudar o sol, ler um capítulo do Tony Robbins e comer uma torrada sete grãos.

O elefante me paralisa,
me diminui e a falta de ar
embaça a minha mente.

Hoje eu falho com os planos de produtividade. O patrão não entende o quão difícil é cuidar de um elefante.

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Sangue, suor e lágrimas.doc

Minha última publicação por aqui foi em 2017 e isso tem um claro porquê chamado MESTRADO.

Ingressei no programa de Pós-Graduação em Literatura Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio em março de 2017 e defendi minha dissertação em abril de 2019. Neste tempo, estudei muito, li muito, escrevi muito, surtei muito (beijo pra minha terapeuta!) e as postagens daqui não estavam nem entre os dez primeiros itens da lista de prioridades.

Agora, pós-ressaca da defesa, senti vontade de escrever de novo sobre o tema de minha dissertação. Acho que imbuída pelo espírito da Bienal do Livro, evento que reúne as turmas do mercado editorial, da pesquisa, da criação de conteúdo e da leitura aficcionada, e que sempre foi como um porto seguro para mim, lembrei da minha motivação para pesquisar este tema que me é tão caro: o BOOKTUBE.

Minha pesquisa foi realizada entre 2017 e início de 2019. Muita coisa aconteceu nesse período, é claro, e o booktube pareceu ter amadurecido alguns aspectos e abandonado tantos outros. Acho que todo pesquisador que se aventura a analisar o contemporâneo deve se sentir atirando uma flecha de um trem em movimento, mas tenho orgulho de não ter me proposto a acertar o centro do alvo, mas em entender o caminho traçado pela flecha.

O youtube mudou bastante nos últimos anos, muita gente migrou para o instagram e para os podcasts, mas ainda vejo que a principal tendência de comportamento, a “partilha de experiências de leitura” se mantém firme no nosso mundo hiperconectado pela redes sociais. (aquele spoiler bem bacana da conclusão da pesquisa).

Ao longo do caminho, encontrei muita gente incrível e com vontade de entender este fenômeno, mas era no momento da TRETA que ficava mais clara a força do coletivo.
– Se você, em algum momento, achar que a comunidade de leitores anda apática e pouco produtiva na internet, experimente falar uma asneira (se for com o véu de rigor acadêmico, melhor ainda) e sinta uma onda de 5 metros de altura estourar na sua cabeça.- 

Numa dessa ondas conheci pesquisadores do tema em diversos níveis (graduação, mestrado e doutorado) e universidades (UFC, UFPA, UFRJ, UNIRIO…) e vimos como ainda é difícil reunir material sobre esse objeto contemporâneo. Então, sem vaidades acadêmicas ou competitividade, começamos a trocar arquivos com artigos científicos, pesquisas, links para eventos e reportagens e tudo o que era possível para ajudar a construir uma bibliografia em conjunto. Minha gente, como isso fez diferença. Os conceitos de ‘inteligência coletiva’ e ‘partilha de leitura’ estavam ali, postos não só como objeto de pesquisa, mas também no próprio fazer da pesquisa. Algo em metalinguagem prática que era de uma beleza sem fim e que trazia um acalento nos momentos mais duros da escrita (e quem já escreveu uma dissertação sabe que não são poucos).2018-11-22 (1).png

Agora (no momento pós-ressaca, reforço) paro para refletir e agradecer a ajuda de todos.
Agradeço aos colegas pesquisadores, aos amigos booktubers (sempre disponíveis a me passar as informações), à turma reflexiva do mercado (Mabi e Lameira <3) e até aos letrados desinformados geradores de treta.
Como contribuição, deixo aqui abaixo o texto integral da minha pesquisa.

Aos que começaram nessa jornada de pesquisa sobre o Booktube agora: boa sorte, aproveite a jornada, faça terapia, conte com seus pares, não se deixe cegar pelos holofotes e dê atenção a metodologia.

 

Grande abraço,
nos vemos na Bienal.

Dissertação Ana Carolina Barbosa Carpintéro (final)

ps: eu queria deixar o link da plataforma Capes, mas o arquivo ainda não foi indexado por lá.

 

Versículo Sete

O amor é um troço. Um negócio que dá por aqui, sabe? que cresce. Vai crescendo, cresCENDO, CRESCENDO e Para.

Ai você continua andando até que meio que acostuma, e depois esse negócio passa a fazer parte das outras coisas.
você nem percebe que tá por aí e por aqui com esse troço, e resolve colocar tudo na estante daquele quarto. Aí você olha pra estante.
olha bastante, olha às vezes,
às vezes nem olha.

E pega o amor lá só quando precisa.

Duas Cartas

22/01/95

Li recentemente que escrever uma carta é mandar uma mensagem para o futuro. Pois bem, como o futuro é o único lugar onde você poderá ler estas palavras, minha filha, achei acertado escrevê-las agora.

Hoje é seu primeiro aniversário. Sua mãe foi às pressas ao supermercado comprar alguns itens de última hora para sua festa. Parece que Marina, sua tia, ligou avisando que está de regime e que só bebe refrigerante diet. Veja se tem cabimento? Quem quer emagrecer bebe água, e não liga de véspera pra arrumar trabalho para os outros, não é mesmo?

Mas tudo há seu lado positivo, enquanto mamãe perde seus últimos fios de cabelo preparando o evento perfeito, eu fiquei com a mais honrosa e inspiradora tarefa, a de cuidar de você.

Estamos nós dois na sala de casa. Você ensaia seus primeiros passos e faz de tudo para arrancar esse laço enorme que te colocaram na cabeça, algo lindo de se ver. Minha pequena rebelde, minha melhor obra de arte.

Ah, minha filha querida, se algum dia eu ousei pensar que entendia de amor, estava enganado. E não há prosa ou poesia que traduza o calor que sinto no peito neste exato momento, ao te ver finalmente conseguir tirar os sapatos cor de rosa.

Meu amor, minha menina, minha melhor parte de mim. Em que pedaço do futuro será que estas palavras vão te alcançar? Será que você já estará adulta? Será engenheira, médica ou talvez bailarina? Você já demonstra tanto talento para a dança, acompanha o ritmo das músicas e reage a elas do seu jeito, criando seus próprios passos… Na verdade não me importa que caminho você siga, minha filha, contato que seja o que te traga felicidade.

Sempre vou apoiar seus sonhos, quero que você cresça com confiança para abrir as asas e alcançar grande vôos.

Na verdade não, retiro o que disse. Não quero que você cresça. Preciso de mais tempo para me deleitar com esse pedacinho do presente, para me banhar nesses sentimentos puros e plenos que tenho ao te ver agora, já sem o laço, sem os sapatos e com o vestido sujo dos brigadeiros que conseguiu roubar antes da festa.

Te amo mais que todas as cartas de amor,

Seu pai.

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22/01/16

Meu velho,

Sendo as cartas um instrumento do tempo, espero que esta aqui chegue a um lugar onde nós dois estejamos juntos novamente.

 Mamãe hoje está tranqüila e aqui no sofá lendo o último livro do Chico, disse que já tenho idade suficiente para organizar meu próprio aniversário. Tia Marina ligou há pouco para avisar que agora só bebe chá orgânico. Tantos anos se passaram e a gorda ainda não aprendeu a beber água, veja só! 

Já encomendei o bolo, enrolei os brigadeiros e mamãe fez um troço de pasta de soja para os petiscos. Ela virou vegetariana depois daquele retiro espiritual na Índia, mas vez ou outra ainda faz aquela sua receita de pizza. E sempre que pega o vidro de erva doce para salpicar sobre as rodelas de calabresa, me lança uma piscadela e diz: ‘Agora o segredo do papai’, como se fossemos cúmplices de uma travessura.

Meus amigos não gostam de erva doce na pizza de calabresa. Para dizer a verdade, ‘não gostar’ é um eufemismo perto das coisas que eles falam sobre essa nossa mistura peculiar de sabores. Eu não me importo com o que dizem, essa pizza pra mim, vai ser sempre a mais gostosa, a que tem gostinho de infância, de carinho de pai.

Preciso te contar uma novidade: conheci um carinha na faculdade. Ele é simpático, bonito, carinhoso e muito inteligente. Está cursando mestrado em física, acredita? É apaixonado pelo que faz, e é capaz de ficar horas falando sobre partículas quânticas e movimentação das galáxias. Desse tipo de coisa que ninguém consegue ver, medir ou provar, mas que todos acreditam por ser tratar de uma ‘ciência exata’. Ainda não sei como os físicos ficaram com a fama de mestres, e nós artistas, com a fama de loucos! Nos divertimos bastante com isso e estou a ponto de convencê-lo de que há mais exatidão na minha música do que nas teorias dele.

 Ai paizinho, queria que você estivesse aqui para conhecê-lo. E também para ver que estou mantendo a tradição de me livrar dos laços de cabeça e dos sapatos cor de rosa antes da hora do parabéns.

Te amo mais que todas as sinfonias,

 Sua filha.

 

 PS – esqueci de dizer: ele também gosta de erva doce na pizza.

Sem ponto final

Já reparou que protagonista de romance tem que ter grana, beleza, inteligência, trauma de infância, status e vontade de vencer na vida, e que se o romance for na onda do feminismo é a mulher que tem tudo isso e o cara tem nada, com sorte sobra um trauma de infância para fazer a composição da personagem, mas protagonista que é protagonista tem que ter desejo de vencer na vida porque ninguém vai escrever história de quem acorda às 6 da manhã e medita, e trabalha, e passeia com o cachorro, e esquenta uma sopa, e vê House of Cards, e dorme, e acorda porque isso não é história de protagonista de romance, isso é história de gente, e gente não se interessa por história de gente, porque gente quer ler sobre protagonista que deseja vencer na vida, mesmo que a vida de uma pessoa seja a vida de só uma pessoa, e se só tem um competidor na corrida não tem como chegar em segundo lugar, então todo mundo vence na própria vida, mas o cara do cachorro e netflix que não compete com ninguém e não tem desejo de vencer na vida e nem trauma de infância não pode ser protagonista de romance, porque gente que não quer vencer na vida não gosta de ver história de gente que não quer vencer na vida e escolhe na netflix a história do cara que tem grana e beleza e inteligência e trauma de infância e vontade de vencer na vida

Miniconto- Promete?

baloons

-Promete que vai guardar meus desenhos e meus troféus do futebol?
-E que vai ter paciência para me explicar química orgânica?
-Promete que não vai me esquecer na escola e que não vai chorar quando ninguém aparecer naquela festa de aniversário por causa da chuva forte?
-E que não vai me levar naqueles teatros de fantoche?
-Mas aqueles teatrinhos são tão legais! E são ótimos para o desenvolvimento cognitivo.
-Aqueles teatrinhos são um saco. Ninguém gosta daquilo, é unanimidade.
-Jura? Acho que estamos desavisados por aqui. Se é assim, tudo bem, prometo.
-Promete que vai procurar os monstros debaixo da minha cama quando o nosso cachorro John for embora? Ele é o melhor espanta-monstros do mundo, sabia?
-Sim eu sei. Vou pedir para ele me ensinar essa tarefa e prometo fazer o meu melhor.
-E promete virar as panquecas no ar para o nosso café da manhã de domingo?
-Posso delegar essa função para a tia Carol? Não quero fazer promessas tão distantes da realidade.
-Tudo bem, eu gosto da tia Carol.
-E ela faz ótimas panquecas, você vai ver.
-Agora o mais importante de tudo; promete que vai me amar quando eu tirar o seu sono, a sua fome, as suas férias, a sua poupança e estragar todas as suas tentativas de reencontrar as amigas da faculdade por uns três anos?
-Prometo que vou te amar nessas horas, e em todas as outras.Por todos os dias da minha vida.
-Tudo bem, mãe. Pode fazer xixi no palitinho, já cheguei.

Para Ju, Beto, John e Clara.