Escritas Performáticas

Me descobri apaixonada por literatura mas a preguiça de voltar para a graduação me impede de estudar mais a fundo o tema, então fui atrás de cursos de curta duração onde eu pudesse encontrar outros loucos em situação parecida e ler uma quantidade animal de livros em um curto espaço de tempo sem ninguém me julgar.

Para minha grata surpresa, encontrei uma grande variedade de cursos de extensão na Puc-Rio e, por uma pequena fortuna parcelada em 12 vezes no boleto das Casa Bahia, eu me inscrevi num curso chamado ‘Escritas Performáticas’. A proposta do curso envolvia, além da discussão e análise de livros maravilhosos que eu nem sabia que existiam, exercícios de escrita super diferentes e criativos que tiravam qualquer um da zona de conforto.

Então fui lá eu por 10 noites de segunda-feira ser feliz na Gávea.

Amei o curso e recomendo a todos que queiram expandir o conhecimento em literatura. Já publiquei aqui e aqui uns exercícios de escrita que fiz durante as aulas e também vou deixar uma lista com todos os livros que lemos durante o curso. Alguns livros eu li o texto completo, outros li somente partes (por falta de tempo ou por completo estranhamento da obra e choque-e esse estranhamento demora a leitura, então voltamos ao primeiro problema).

Prometo colocar resenhas de alguns desses textos. Algumas serão medrosas e meio cagadas, outras serão mais divertidas ou profundas, mas todas performáticas (porque descobri que é divertido fazer performance com o texto) (e também descobri que adoro colocar parênteses sem necessidade).

 

Livros discutidos durante o  curso, em ordem aleatória:

O ateliê de Giacometti , de Jean Genet
A coleção particular, de Georges Perec
Coleção de Ficções, de Gordon Lish
O Brasil é bom, de Andre santanna
Foe, de J.M. Coetzee
O espelho da tauromaquia, de Michel Leiris
Cosmos, de Witold Gombrowicz
Náufrago,de Thomas Bernhard
A polaquinha, de Dalton Trevisan
Estar sendo. Ter sido, de Hilda Hilst
Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino
Três tristes tigres, de Guillermo Cabrera Infante
As noites de flores, de César Aira
Respiração artificial, de Ricardo Piglia
Museu do romance da eterna, de Macedônio Fernández
Ficções, de Jorge Luis Borges

 

Nota para o Curso: todas

Duas Cartas

22/01/95

Li recentemente que escrever uma carta é mandar uma mensagem para o futuro. Pois bem, como o futuro é o único lugar onde você poderá ler estas palavras, minha filha, achei acertado escrevê-las agora.

Hoje é seu primeiro aniversário. Sua mãe foi às pressas ao supermercado comprar alguns itens de última hora para sua festa. Parece que Marina, sua tia, ligou avisando que está de regime e que só bebe refrigerante diet. Veja se tem cabimento? Quem quer emagrecer bebe água, e não liga de véspera pra arrumar trabalho para os outros, não é mesmo?

Mas tudo há seu lado positivo, enquanto mamãe perde seus últimos fios de cabelo preparando o evento perfeito, eu fiquei com a mais honrosa e inspiradora tarefa, a de cuidar de você.

Estamos nós dois na sala de casa. Você ensaia seus primeiros passos e faz de tudo para arrancar esse laço enorme que te colocaram na cabeça, algo lindo de se ver. Minha pequena rebelde, minha melhor obra de arte.

Ah, minha filha querida, se algum dia eu ousei pensar que entendia de amor, estava enganado. E não há prosa ou poesia que traduza o calor que sinto no peito neste exato momento, ao te ver finalmente conseguir tirar os sapatos cor de rosa.

Meu amor, minha menina, minha melhor parte de mim. Em que pedaço do futuro será que estas palavras vão te alcançar? Será que você já estará adulta? Será engenheira, médica ou talvez bailarina? Você já demonstra tanto talento para a dança, acompanha o ritmo das músicas e reage a elas do seu jeito, criando seus próprios passos… Na verdade não me importa que caminho você siga, minha filha, contato que seja o que te traga felicidade.

Sempre vou apoiar seus sonhos, quero que você cresça com confiança para abrir as asas e alcançar grande vôos.

Na verdade não, retiro o que disse. Não quero que você cresça. Preciso de mais tempo para me deleitar com esse pedacinho do presente, para me banhar nesses sentimentos puros e plenos que tenho ao te ver agora, já sem o laço, sem os sapatos e com o vestido sujo dos brigadeiros que conseguiu roubar antes da festa.

Te amo mais que todas as cartas de amor,

Seu pai.

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22/01/16

Meu velho,

Sendo as cartas um instrumento do tempo, espero que esta aqui chegue a um lugar onde nós dois estejamos juntos novamente.

 Mamãe hoje está tranqüila e aqui no sofá lendo o último livro do Chico, disse que já tenho idade suficiente para organizar meu próprio aniversário. Tia Marina ligou há pouco para avisar que agora só bebe chá orgânico. Tantos anos se passaram e a gorda ainda não aprendeu a beber água, veja só! 

Já encomendei o bolo, enrolei os brigadeiros e mamãe fez um troço de pasta de soja para os petiscos. Ela virou vegetariana depois daquele retiro espiritual na Índia, mas vez ou outra ainda faz aquela sua receita de pizza. E sempre que pega o vidro de erva doce para salpicar sobre as rodelas de calabresa, me lança uma piscadela e diz: ‘Agora o segredo do papai’, como se fossemos cúmplices de uma travessura.

Meus amigos não gostam de erva doce na pizza de calabresa. Para dizer a verdade, ‘não gostar’ é um eufemismo perto das coisas que eles falam sobre essa nossa mistura peculiar de sabores. Eu não me importo com o que dizem, essa pizza pra mim, vai ser sempre a mais gostosa, a que tem gostinho de infância, de carinho de pai.

Preciso te contar uma novidade: conheci um carinha na faculdade. Ele é simpático, bonito, carinhoso e muito inteligente. Está cursando mestrado em física, acredita? É apaixonado pelo que faz, e é capaz de ficar horas falando sobre partículas quânticas e movimentação das galáxias. Desse tipo de coisa que ninguém consegue ver, medir ou provar, mas que todos acreditam por ser tratar de uma ‘ciência exata’. Ainda não sei como os físicos ficaram com a fama de mestres, e nós artistas, com a fama de loucos! Nos divertimos bastante com isso e estou a ponto de convencê-lo de que há mais exatidão na minha música do que nas teorias dele.

 Ai paizinho, queria que você estivesse aqui para conhecê-lo. E também para ver que estou mantendo a tradição de me livrar dos laços de cabeça e dos sapatos cor de rosa antes da hora do parabéns.

Te amo mais que todas as sinfonias,

 Sua filha.

 

 PS – esqueci de dizer: ele também gosta de erva doce na pizza.

Sem ponto final

Já reparou que protagonista de romance tem que ter grana, beleza, inteligência, trauma de infância, status e vontade de vencer na vida, e que se o romance for na onda do feminismo é a mulher que tem tudo isso e o cara tem nada, com sorte sobra um trauma de infância para fazer a composição da personagem, mas protagonista que é protagonista tem que ter desejo de vencer na vida porque ninguém vai escrever história de quem acorda às 6 da manhã e medita, e trabalha, e passeia com o cachorro, e esquenta uma sopa, e vê House of Cards, e dorme, e acorda porque isso não é história de protagonista de romance, isso é história de gente, e gente não se interessa por história de gente, porque gente quer ler sobre protagonista que deseja vencer na vida, mesmo que a vida de uma pessoa seja a vida de só uma pessoa, e se só tem um competidor na corrida não tem como chegar em segundo lugar, então todo mundo vence na própria vida, mas o cara do cachorro e netflix que não compete com ninguém e não tem desejo de vencer na vida e nem trauma de infância não pode ser protagonista de romance, porque gente que não quer vencer na vida não gosta de ver história de gente que não quer vencer na vida e escolhe na netflix a história do cara que tem grana e beleza e inteligência e trauma de infância e vontade de vencer na vida