Sobre O valor do Chick lit ou, Eu te amo Marian Keyes

Eu comecei a gostar de ler tarde. Quando vejo alguém apaixonado por livros, a história sempre começa com “lia os livros da minha mãe”, ou “virava a noite lendo Harry Potter” ou até mesmo “tinha coleção completa da Turma da Mônica”.
Eu não lia gibis. Eu não lia os livros indicados na escola. Eu nunca ansiei por uma carta de Hogwarts.

Certo dia, num mar de textos teóricos e pesados da graduação, resolvi me abrigar em um romance leve e divertido, para que pudesse me distrair e esquecer um pouco os meios frios e quentes e a modernidade líquida. Foi quando me dei conta de que havia lido 400 páginas em dois dias. E assim, num só golpe, me tornei leitora e fã de chicklit.

C-H-I-C-K-L-I-T um termo cunhado de forma um tanto pejorativa, às vezes usado para indicar uma “baixa literatura”, comercial, sem valor artístico-filosófico-o-que-seja, mas que está sempre presente nas livrarias e no vagão das mulheres do metrô do Rio de Janeiro. É basicamente um gênero de comédia romântica ou drama romântico com protagonistas mulheres na faixa dos 30 anos. (sabe Bridget Jones? Então, é por ai.)

Eu não leio uma história garota-encontra-garoto esperando Dostoiévski e, pasmem, as autoras não escrevem esses textos tentando ser Dostoiévski. Se hoje eu amo literatura ao ponto de embarcar em uma pós-graduação na área (e minha pesquisa é sobre a nova crítica literária) é porque algum dia eu virei uma leitora, e fui apresentada aos livros por Marian Keyes e Sophie Kinsella. Elas escrevem livros de 500 páginas que poderiam ser resumidas em 5? Sim. As temáticas são parecidas e os conflitos das personagens são triviais? Na maioria das vezes, sim. A linguagem é simples e acessível? sem dúvidas, sim. E QUAL É O PROBLEMA?

Sabe o que eu fiz quando concluí o longo e desgastante processo seletivo do mestrado? Li um livro de 500 páginas sobre uma mulher que escreve um livro bobo enquanto estava hospitalizada, vira uma estrela literária e depois tudo vai por água abaixo. Livro esse que estava em minha cabeceira aguardando ansiosamente para ser lido desde o dia em que enfrentei 3 horas de fila para conseguir o autógrafo da autora irlandesa baixinha fofa por quem sou muito grata de ter entrado em minha vida.

Isso aí, depois de um ano lendo os Nobel de literatura, os filósofos da linguagem e os clássicos da crítica, fui correndo para os braços de quem a academia tanto despreza. E ESTÁ TUDO BEM. Tudo bem. Não me interprete mal por favor, eu amei ler os Nobel, os filósofos e os clássicos. Fiz marcações com caneta rosa e corações (sou dessas) no devir de Deleuze, beijaria Suely Rolnik após ler a “geopolítica da cafetinagem” e assaria biscoitos para receber Rancière para um chá da tarde, mas quando preciso apertar o pause e relaxar, sei a qual estante da livraria recorrer.

 

A conclusão que chego? Bem, pode ser que daqui a dois anos, quando terminar minha dissertação sobre o assunto eu ache esse post infantil e descabido, mas por enquanto, vejo que não se deve julgar o leitor por suas leituras (por mais que eu torça o nariz para os fãs de Augusto Cury. Tenha dó, gente! ).

Feliz 2017, boas leituras a todos e me desejem sorte no mestrado!

Beijos

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