Leituras de Fevereiro 2016

Era pra ser um vídeo rápido sobre os livros que li no mês passado, mas falei tanto que acabou virando um curta-metragem com 4 resenhas literárias.  (isso porque eu editei muito! No original era um longa metragem)

Chega de enrolação e vamos ao vídeo. Quem gostar desse tipo de conteúdo me avisa que eu posso fazer mais posts assim. Ou não. Eu não sou muito disciplinada nas postagens, né? É a vida.

Bj!

Livros citados:
A Civilização do Espetáculo- Mario Vargas Llosa
After 1 e 2 – Anna Todd
O Velho e o Mar – Ernest Hemingway
Mulheres- Charles Bukowski

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A civilização do espetáculo – Opinião sobre o livro

“A civilização do espetáculo”, de Mario Vargas Llosa, foi a escolha do meu clube do livro para o mês de janeiro e, por já ter lido o texto “A sociedade do espetáculo”, de Guy Debord na graduação, logo me interessei bastante pela leitura.

Realmente a introdução e o primeiro capítulo do livro fazem essa ponte com a obra de Debord, uma crítica a perda de valores da sociedade, sendo tudo reduzido ao entretenimento. O jornalismo perde seu caráter crítico e investigativo e aumenta o número de reportagens sensacionalistas e cobertura da frivolidade. A literatura também foge do convite a reflexão (seja ela sobre o comportamento humano em um romance ou sobre questões sociais de nossa época). As obras literárias de nosso século são sempre lights, com o intuito de distrair o leitor em sua viagem de metrô ou na fila do banco.

Capa A civilizacao do espetaculo.inddAs artes plásticas (e desse assunto eu entendo pouco) almejam chocar, criar uma vanguarda de um movimento sem estética ou propósito. Sobre a música acho que o autor nem cita exemplos, acredito por ser de senso comum que a música contemporânea seja essencialmente comercial. Em resumo, retoma a ideia de que a cultura se transformou em bem de consumo: uma ida ao museu para render fotos no instagram, a compra de um quadro como investimento financeiro e a leitura de um livro para se passar de cult numa mesa de bar.

Os capítulos seguintes abordam temas como política, religião e liberdade sexual.
Posso parecer pedante, petulante, polêmica ou tanto faz, mas não gostei do livro. A temática é ótima e a redação também, mas algumas coisas me incomodaram bastante ao longo do texto e consegui separá-las em três categorias:

1- Mais do mesmo
Muitas vezes notei que o texto apenas descrevia o cotidiano, sem opinião ou reflexão, apenas apontava o óbvio. Sei que isso tem o seu valor na áreas de humanidades, mas alguns trechos me lembravam minhas encheções de linguiça em provas de teoria da comunicação.

2- Crítica dura a meus heróis
Ok, chamar Roland Barthes de herói é um exagero de minha parte, mas ver uma dura crítica a Foucault, Lipovetsky, Baudrillard e tantos outros autores estudados por mim por diversos anos foi difícil de digerir. Além de soar como derrotista e ressentido ao criticar esses teóricos com pouquíssimo embasamento, Llosa ainda usa o termo “cultura ” como a séculos não se usa mais. Faz a distinção de alta (de elite) e baixa cultura (popular), retoma a discussão de que algumas culturas (agora no sentido de hábitos sociais) são superiores a outras, que a cultura de alguns países europeus é melhor do que de algumas tribos africanas, por exemplo.
Esse julgamento de valor me deixou bem irritada, mas não vou me aprofundar pois já citei meus ‘heróis’ da sociologia e quem os conhece sabe o porque deste choque.

3- Generalização e opinião pessoal mascarada
Uma passagem sobre a liberdade sexual e o fim do erotismo chega a ser cômica. Llosa, que diversas vezes critica os sofistas, nos apresenta o seguinte raciocínio sofista-enganador :
Todos os jovens se interessam pelo o que lhes é proibido. A liberdade sexual acaba com o mistério e o pudor do sexo. Logo, os jovens vão atrás de outras coisas proibidas, como as drogas.
OU SEJA, se você conversar abertamente com seu filho adolescente sobre masturbação (que era o assunto em debate no capítulo) ele perderá o interesse em sexo e começará a usar drogas. Jura? Mas você jura mesmo que você disse isso Llosa? Que raciocínio é esse que eu não entendi até agora?
Essa dinâmica de lógica sofista se dá em outros trechos do livro e, a meu ver, só servem para mascarar uma opinião pessoal do autor por pesquisa social fundamentada.

 

No geral, acho que Llosa conseguiu cumprir um papel importante com seu livro: gerou reflexão e discussão e não foi objetificado com o intuito de entreter os leitores, no caso, as leitoras, já que meu Clube do Livro é composto por mulheres.

 

Nota: 2/ 5

 

Resenha- Eu sou Malala

Malala viu seu vale virar refém do Talibã.
Malala viu seu pai lutar para manter uma escola de qualidade para meninos e meninas no Swat, Paquistão.
Malala ergueu sua voz para defender o direito à educação das meninas enquanto mulheres eram agredidas por saírem às ruas sem burca.
Malala sobreviveu a guerra,a um tiro a queima roupa, recebeu o apoio de todo o Ocidente e foi a pessoa mais jovem a ganhar um Nobel da Paz.
Definitivamente, a história de Malala e de seu país merece ser conhecida.

Li este livro por indicação de uma amiga do meu ‘Clube do Livro’. Como não sou muito fã de biografias, confesso que esta leitura foi bem além da minha zona de conforto, mas os temas abordados no livro são, infelizmente, muito atuais e importantes para enriquecer debates sobre fundamentalismo religioso, feminismo e o ‘terrorismo’ que temos visto com mais frequência nos noticiários.

O livro narra histórias de familiares e amigos de Malala, e monta um panorama do crescimento do Talibã e da ‘guerra ao terror’ pelo ponto de vista do povo paquistanês. Vejo como um ótimo material histórico e de criação de empatia pelos milhares de islâmicos inocentes que também sofrem nas mãos do Talibã. Este livro serviu bastante para humanizar minha visão de ‘povo muçulmano’ e amenizar essa visão de ‘nós’ versus ‘eles’ construída com tanto afinco pela nossa querida mídia internacional.

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Sim, eu leio na academia.

Analisando como obra de literatura, eu, enquanto leitora, não gostei do texto. A leitura é lenta e difícil. Há muitos personagens e uso de palavras em outra língua. Mesmo que se explique o significado das palavras, o ritmo  da leitura acaba sendo quebrado constantemente. (Todas as amigas do clube do livro tiveram dificuldades em achar um ritmo bom de leitura.)

Um ponto curioso é que a campanha de divulgação do livro exalta o Malala como ganhadora do Nobel da Paz, porém, a própria dedica 2 ou 3 linhas a essa conquista. Acredito que isso se deva a cultura patchun de não valorizar seus grandes feitos. Sinto que sei mais sobre a galinha de estimação da família do que sobre o que é ser a mais jovem ganhadora de um Nobel.

 

Tendo dito isso, dei 2 estrelas para o livro. Não pelo conteúdo, é claro, mas o texto poderia ser bem melhor.

Para encerrar, deixo um poema escrito po Martin Niemoller, que viveu na Alemanha nazista e que é citado no livro como sendo um dos favoritos de Ziauddin, pai de Malala.

Primeiro vieram buscar os comunistas,
e eu não disse nada por não ser comunista.
Depois vieram buscar os socialistas,
e eu não disse nada por não ser socialista.
Então vieram buscar os sindicalistas,
e eu não disse nada por não ser sindicalista.
Em seguida vieram buscar os judeus,
e eu não disse nada por não ser judeu.
Também vieram buscar os católicos,
e eu não disse nada por não ser católico.
Então vieram me buscar,
e não havia ninguém para me defender.