Outliers- fora de série (resenha)

Conversando em um jantar com um amigo sobre meu projeto “As 20 primeiras horas”, descobri que a tal teoria das 10 mil horas de dedicação para se tornar um expert em uma área foi primeiramente abordada neste livro do Malcolm Gladwell entitulado Outliers (em português “Fora de Série”). É claro que fiquei bastante curiosa para ler o texto na íntegra e saber dessa história direto na fonte, e tive a grata surpresa ao ver que Outliers vai muito além das 10 mil horas.

‘Outlier’ é  o que podemos chamar de ponto fora da curva. Algo de destaque tão grande que foge a todos os padrões e nesse caso, Gladwell pegou o conceito emprestado da estatística para falar de pessoas de maior destaque em suas áreas. Para o autor, os grandes nomes do esporte, da música, da química, das artes, etc se dedicaram por, no mínimo 10 mil horas a seu ofício. Gladwell lança mão de diversos exemplos para provar que a intensa dedicação e um ‘quê’ de aptidão natural podem fazer do homem esforçado, uma referência na área.

Selfmade man?

Essa não é uma ideia muito difícil de vender, certo?  Todos o livros e filmes hollywoodianos de ‘histórias de sucesso’ nos mostram que o intenso esforço individual é força motriz suficiente para o selfmade man chegar ao topo, não é mesmo?
E é aí que entra a grande sacada do livro: o autor se utliza de dados estatísticos e históricos para desconstruir esse mito.

outliersSim, é claro que dedicação e
aptidão são essenciais, mas através de diversas análises ele consegue nos mostrar como nascer em um tal período do ano, ou em tal cidade, ou ter uma bagagem cultural diferente podem ser mais relevantes do que ter um QI de 200 na conquista de prêmio Nobel.

Com a permissão do spoiler, digo que descobrir que jogadores de Hockey nascidos em janeiro tem mais chance de virarem profissionais e que grandes desastres aéreos foram causados pela subserviência de algumas culturas foi das coisas mais curiosas que li ultimamente. Além disso, a ligação da facilidade dos orientais com a matemática com a cultura dos arrozais foi uma descoberta que me fez xingar alguns palavrões em voz alta. (sim, sou uma leitora catártica que mal-educada)

Um livro de curiosidades ou de auto-ajuda?

Pelo que pude notar,há um consenso em classificar os livros de Gladwell como ‘auto-ajuda’, mas esse em especial eu não entendi o porquê. Este livro não te ensina nada, não te motiva a nada e, não vou dizer que ele atrapalha, mas AJUDAR também não ajuda!
Ao final da leitura, fiquei bem mais confusa se a meritocracia existe ou se é mais um conceito inventado por quem está no topo e não consegue olhar para nada além de seu umbigo.

Ninguém ‘se faz sozinho’, somos frutos do meio e contamos com nossa história, cultura e um bocado de sorte. Então vale a pena se dedicar 10 mil horas ou mais para atingir a excelência? E se eu não estiver no local certo na hora certa e cercada das pessoas certas, conseguirei me tornar ‘fora de série’?  Confesso que essas questões me incomodaram bastante e me fizeram pensar. E que MARAVILHA isso, não? Um livro que TE FAZ PENSAR, veja só!

Terminei a leitura com mais perguntas do que respostas e um bônus de ‘fatos curiosos’ para temperar mais conversas em jantares com amigos.

“Toda vez que a sorte bateu em minha porta, me encontrou trabalhando.”
(frase atribuída a uns 40 pensadores diferentes na internet)

 

No geral, gostei bastante do livro. Fácil leitura e o texto flui que é uma beleza!
Dei nota 4,5.
Li no kindle e tem no LeLivros pra baixar de graça.

 

Informações Técnicas:
Título: Fora de Série- Outliers
Autor: Malcolm Gladwell
Editora: Sextante
Páginas: 288

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A civilização do espetáculo – Opinião sobre o livro

“A civilização do espetáculo”, de Mario Vargas Llosa, foi a escolha do meu clube do livro para o mês de janeiro e, por já ter lido o texto “A sociedade do espetáculo”, de Guy Debord na graduação, logo me interessei bastante pela leitura.

Realmente a introdução e o primeiro capítulo do livro fazem essa ponte com a obra de Debord, uma crítica a perda de valores da sociedade, sendo tudo reduzido ao entretenimento. O jornalismo perde seu caráter crítico e investigativo e aumenta o número de reportagens sensacionalistas e cobertura da frivolidade. A literatura também foge do convite a reflexão (seja ela sobre o comportamento humano em um romance ou sobre questões sociais de nossa época). As obras literárias de nosso século são sempre lights, com o intuito de distrair o leitor em sua viagem de metrô ou na fila do banco.

Capa A civilizacao do espetaculo.inddAs artes plásticas (e desse assunto eu entendo pouco) almejam chocar, criar uma vanguarda de um movimento sem estética ou propósito. Sobre a música acho que o autor nem cita exemplos, acredito por ser de senso comum que a música contemporânea seja essencialmente comercial. Em resumo, retoma a ideia de que a cultura se transformou em bem de consumo: uma ida ao museu para render fotos no instagram, a compra de um quadro como investimento financeiro e a leitura de um livro para se passar de cult numa mesa de bar.

Os capítulos seguintes abordam temas como política, religião e liberdade sexual.
Posso parecer pedante, petulante, polêmica ou tanto faz, mas não gostei do livro. A temática é ótima e a redação também, mas algumas coisas me incomodaram bastante ao longo do texto e consegui separá-las em três categorias:

1- Mais do mesmo
Muitas vezes notei que o texto apenas descrevia o cotidiano, sem opinião ou reflexão, apenas apontava o óbvio. Sei que isso tem o seu valor na áreas de humanidades, mas alguns trechos me lembravam minhas encheções de linguiça em provas de teoria da comunicação.

2- Crítica dura a meus heróis
Ok, chamar Roland Barthes de herói é um exagero de minha parte, mas ver uma dura crítica a Foucault, Lipovetsky, Baudrillard e tantos outros autores estudados por mim por diversos anos foi difícil de digerir. Além de soar como derrotista e ressentido ao criticar esses teóricos com pouquíssimo embasamento, Llosa ainda usa o termo “cultura ” como a séculos não se usa mais. Faz a distinção de alta (de elite) e baixa cultura (popular), retoma a discussão de que algumas culturas (agora no sentido de hábitos sociais) são superiores a outras, que a cultura de alguns países europeus é melhor do que de algumas tribos africanas, por exemplo.
Esse julgamento de valor me deixou bem irritada, mas não vou me aprofundar pois já citei meus ‘heróis’ da sociologia e quem os conhece sabe o porque deste choque.

3- Generalização e opinião pessoal mascarada
Uma passagem sobre a liberdade sexual e o fim do erotismo chega a ser cômica. Llosa, que diversas vezes critica os sofistas, nos apresenta o seguinte raciocínio sofista-enganador :
Todos os jovens se interessam pelo o que lhes é proibido. A liberdade sexual acaba com o mistério e o pudor do sexo. Logo, os jovens vão atrás de outras coisas proibidas, como as drogas.
OU SEJA, se você conversar abertamente com seu filho adolescente sobre masturbação (que era o assunto em debate no capítulo) ele perderá o interesse em sexo e começará a usar drogas. Jura? Mas você jura mesmo que você disse isso Llosa? Que raciocínio é esse que eu não entendi até agora?
Essa dinâmica de lógica sofista se dá em outros trechos do livro e, a meu ver, só servem para mascarar uma opinião pessoal do autor por pesquisa social fundamentada.

 

No geral, acho que Llosa conseguiu cumprir um papel importante com seu livro: gerou reflexão e discussão e não foi objetificado com o intuito de entreter os leitores, no caso, as leitoras, já que meu Clube do Livro é composto por mulheres.

 

Nota: 2/ 5

 

Felicidade Roubada – resenha do livro

Sobre o livro:

blog_felicidaderoubadaDr. Alan é um neurocirurgião renomado e admirado por seu incrível talento e conhecimento na área. Vive em função do hospital, das aulas, palestras e conferências internacionais que ministra. Coloca seu trabalho em primeiro plano, diminui colegas e residentes, zomba da psicologia e psiquiatria como formas de “ciência do cérebro”. Não tem tempo para sua filha de 6 anos, Lucila, ou para sua atual esposa, Claudia.

Alan de Alcantara se vê no topo do mundo quando, no meio de uma cirurgia, tem uma crise de pânico e precisa abandonar o centro cirúrgico acreditando sofrer um enfarto. Após saber que não havia nada de errado com seu coração e sim com sua mente, o doutor, que não acredita em distúrbios psicológicos, começa uma batalha/jornada rumo a cura.

minha opinião

Este foi o primeiro livro de Augusto Cury que li, por indicação do clube do livro que faço parte. Sinceramente, não gostei do estilo do autor, principalmente da construção dos diálogos. “Papai, tenho medo de o perder”, disse Lucila, a filha de 6 anos do médico.  Alguém conhece uma criança que fale assim? Eu certamente não. Peguei birra com os diálogos e revirava os olhos a cada vez que lia algo que soasse a roteiro de “Malhação”.

A primeira metade do livro é de apresentação dos personagens e conta como Alan chega ao fundo do poço. Após essa parte, o texto fica mais interessante, pois é sobre as discussões de Alan com seu psiquiatra. Os diálogos estranhos somem, e o livro toma uma forma de auto-ajuda mais “técnico”, com explicações detalhadas (e um pouco repetitivas) sobre o funcionamento da mente, como as doenças psíquicas podem aparecer e o que fazer para livrar-se dela, ou pelo menos, controlar as crises.

No fim das contas, gostei do livro. O recomendaria a quem tivesse interesse sobre o tema, mas com o alerta para que não o leia esperando um romance, e sim um livro técnico romanceado.