Um café e oito páginas

Tive uma professora que detestava a expressão “hábito de leitura”. Era só alguém soltar a bomba numa conversa que ela descruzava (ou cruzava) as pernas e pegava fôlego para iniciar sua longa argumentação: “Hábito é escovar os dentes ao acordar ou colocar o feijão por cima do arroz. A leitura faz parte da vida, sendo praticada o tempo todo. Lemos livros, quadros, filmes, e situações cotidianas.”
Por eu ter começado esse texto descrevendo a movimentação espacial da professora ao entrar na discussão, ou seja, fazendo uma leitura corporal e uma leitura da situação, acabei por preparar a armadilha para mim mesma: concordo que a leitura é muito mais do que um hábito e que faz parte da vida, mas acordei com vontade de escrever sobre “hábitos de leitura” no modo que nós reles mortais que não tem pós-doutorado no assunto utilizamos – aquele momento do dia em que você para e lê palavras sobre papel1.

Venho aos poucos cultivando o hábito de ler durante o café da manhã. Tenho a felicidade de poder desfrutar de meia hora de calmaria no começo do dia e percebi que estava desperdiçando o silêncio (externo e interno) ao querer usar esses momentos para me colocar a par de tudo o que aconteceu no mundo enquanto eu dormia – vulgo entrar no twitter. Não à toa minha ansiedade batia no teto instantaneamente e eu precisava de, no mínimo, uns cinco vídeos de cachorrinhos para acalmar os ânimos – vulgo sair do twitter e entrar no instagram. Que bela forma de convidar o caos para tomar café, não é mesmo? Cansada dessa companhia barulhenta, decidi substituir as redes sociais por poesia.

Oito páginas de Ferreira Gullar e uma xícara de café com leite de aveia. Minha nova rotina matinal. Meu novo “hábito de leitura”. Escolhi a poesia por uma questão bastante prática: posso pausar a leitura junto ao último gole. É certo que há questões filosóficas, artísticas e profundas em começar o dia com poesia. São todas muito bonitas e muito reais, assim como o meu pragmatismo.

o poema
antes de ser escrito
antes de ser
é possibilidade
do que foi dito
do que está
por dizer

e que
por não ser dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer

(trecho poema Fica o dito por não dito)

E que bela companhia foi Ferreira Gullar no café! O humor, o jogo, a sonoridade das palavras que quase sempre traziam um risinho de canto de boca, como quem tem uma peculiar cumplicidade com o leitor. Acabado o café, hora de marcar a página, fechar o livro e seguir o dia. Amanhã a gente se vê.

O barulho das notícias e das redes não é mais o meu primeiro contato com o mundo ao acordar e isso é bom. O caos aparece ao longo do dia, afinal, estamos no Brasil de 2021, mas sinto que estou um pouco mais preparada para enfrenta-lo. Como quem aquece os músculos antes de começar uma corrida, minha mente não precisa encarar os 200 metros rasos contra a seleção da Jamaica sem terminar de calçar os sapatos.

Meu segundo livro de café da manhã foi o novo da Liliane Prata. Lili é ótima companhia para todas as horas do dia, mas o seu “Tem alguma Coisa na água” conseguiu me arrancar risadas e reflexões com a forma espirituosa (e um tanto nonsense) do retrato da nossa sociedade apresentado nos curtos textos. São contos sobre amores, medos, descobertas e muitas neuroses. Os moradores da fictícia cidade de Peaceville pareciam caricaturas de todas as vozes que moram na minha cabeça, e quem não quer começar o dia batendo um papo descontraído consigo mesma?

– Amai-vos uns aos outros – disse Jesus. – É isso que vim pedir.

A decepção foi geral. “Ele tá de brincadeira, né!”, “Grande novidade!”, “Esse escarcéu todo para repetir o que ele já disse há mais de dois mil anos? “. A multidão rapidamente se dispersou.

( trecho do conto Jesus arruinou meu dia)

Terminei o livro da Lili hoje e ainda não sei qual será minha próxima leitura do café, só sei que continuarei com o hábito de começar o dia de forma mais suave, dando um tempo pra alma voltar pro corpo enquanto acordo e sem a necessidade de ler cinco análises sobre os impactos do aumento da gasolina antes pousar a xícara na mesa.

E você, como está de “hábito de leitura” ?

1que podem estar em dispositivo digital também, é claro.

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