Duas Cartas

22/01/95

Li recentemente que escrever uma carta é mandar uma mensagem para o futuro. Pois bem, como o futuro é o único lugar onde você poderá ler estas palavras, minha filha, achei acertado escrevê-las agora.

Hoje é seu primeiro aniversário. Sua mãe foi às pressas ao supermercado comprar alguns itens de última hora para sua festa. Parece que Marina, sua tia, ligou avisando que está de regime e que só bebe refrigerante diet. Veja se tem cabimento? Quem quer emagrecer bebe água, e não liga de véspera pra arrumar trabalho para os outros, não é mesmo?

Mas tudo há seu lado positivo, enquanto mamãe perde seus últimos fios de cabelo preparando o evento perfeito, eu fiquei com a mais honrosa e inspiradora tarefa, a de cuidar de você.

Estamos nós dois na sala de casa. Você ensaia seus primeiros passos e faz de tudo para arrancar esse laço enorme que te colocaram na cabeça, algo lindo de se ver. Minha pequena rebelde, minha melhor obra de arte.

Ah, minha filha querida, se algum dia eu ousei pensar que entendia de amor, estava enganado. E não há prosa ou poesia que traduza o calor que sinto no peito neste exato momento, ao te ver finalmente conseguir tirar os sapatos cor de rosa.

Meu amor, minha menina, minha melhor parte de mim. Em que pedaço do futuro será que estas palavras vão te alcançar? Será que você já estará adulta? Será engenheira, médica ou talvez bailarina? Você já demonstra tanto talento para a dança, acompanha o ritmo das músicas e reage a elas do seu jeito, criando seus próprios passos… Na verdade não me importa que caminho você siga, minha filha, contato que seja o que te traga felicidade.

Sempre vou apoiar seus sonhos, quero que você cresça com confiança para abrir as asas e alcançar grande vôos.

Na verdade não, retiro o que disse. Não quero que você cresça. Preciso de mais tempo para me deleitar com esse pedacinho do presente, para me banhar nesses sentimentos puros e plenos que tenho ao te ver agora, já sem o laço, sem os sapatos e com o vestido sujo dos brigadeiros que conseguiu roubar antes da festa.

Te amo mais que todas as cartas de amor,

Seu pai.

>
>>
>>>

 

 

22/01/16

Meu velho,

Sendo as cartas um instrumento do tempo, espero que esta aqui chegue a um lugar onde nós dois estejamos juntos novamente.

 Mamãe hoje está tranqüila e aqui no sofá lendo o último livro do Chico, disse que já tenho idade suficiente para organizar meu próprio aniversário. Tia Marina ligou há pouco para avisar que agora só bebe chá orgânico. Tantos anos se passaram e a gorda ainda não aprendeu a beber água, veja só! 

Já encomendei o bolo, enrolei os brigadeiros e mamãe fez um troço de pasta de soja para os petiscos. Ela virou vegetariana depois daquele retiro espiritual na Índia, mas vez ou outra ainda faz aquela sua receita de pizza. E sempre que pega o vidro de erva doce para salpicar sobre as rodelas de calabresa, me lança uma piscadela e diz: ‘Agora o segredo do papai’, como se fossemos cúmplices de uma travessura.

Meus amigos não gostam de erva doce na pizza de calabresa. Para dizer a verdade, ‘não gostar’ é um eufemismo perto das coisas que eles falam sobre essa nossa mistura peculiar de sabores. Eu não me importo com o que dizem, essa pizza pra mim, vai ser sempre a mais gostosa, a que tem gostinho de infância, de carinho de pai.

Preciso te contar uma novidade: conheci um carinha na faculdade. Ele é simpático, bonito, carinhoso e muito inteligente. Está cursando mestrado em física, acredita? É apaixonado pelo que faz, e é capaz de ficar horas falando sobre partículas quânticas e movimentação das galáxias. Desse tipo de coisa que ninguém consegue ver, medir ou provar, mas que todos acreditam por ser tratar de uma ‘ciência exata’. Ainda não sei como os físicos ficaram com a fama de mestres, e nós artistas, com a fama de loucos! Nos divertimos bastante com isso e estou a ponto de convencê-lo de que há mais exatidão na minha música do que nas teorias dele.

 Ai paizinho, queria que você estivesse aqui para conhecê-lo. E também para ver que estou mantendo a tradição de me livrar dos laços de cabeça e dos sapatos cor de rosa antes da hora do parabéns.

Te amo mais que todas as sinfonias,

 Sua filha.

 

 PS – esqueci de dizer: ele também gosta de erva doce na pizza.

Anúncios

Um comentário sobre “Duas Cartas

  1. Pingback: Escritas Performáticas | Sanduíche de Papel

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s